HER, PLATÃO E A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Tudo
é surpreendente em Her, exceto nossa
patetice nas relações de amor e nas outras que mantemos com gadgets eletrônicos. O filme, escrito e
dirigido por Spike Jonze, foi lançado no ano passado e está em exibição por
aqui. Surpreende porque é o óbvio em um futuro breve. Se não prestarmos atenção ao tempo dedicado a smartphones,
jogos e redes de relacionamento, passaremos boa parte da vida como Theodore
Twombly, que se apaixona por um sistema operacional totalmente customizado
instalado no seu computador. O OS, a partir do que Theodore diz para ele,
vasculha a sua vida na internet, organiza documentos, fotos, e-mails e se apresenta para lembrar
compromissos, conversar e fazer compania a qualquer hora do dia ou da noite,
bastando ligar ou atender a uma ligação de Samantha – a voz do sistema.
Apesar
do alerta, o filme não é moralista e nem faz uma crítica, pelo menos direta, ao
comportamento, muitas vezes ridículo, de quem está o tempo todo teclando. Você
só não vê pessoas falando sozinhas em qualquer lugar porque os aparelhos
acionados por comando de voz ainda estão entre os mais caros, mas é uma questão de tempo para aquele futuro breve ultrapassar a ficção do roteiro.
Jonze é inteligente demais para, simplesmente, anotar um comportamento
disfuncional entre pessoas e máquinas, mesmo porque o tema não é novo.
A literatura e o cinema têm abordado esse tipo de fetiche não é de hoje. Lembra de "2001 – Uma odisseia no espaço" ? Pois é, o OS de Theodore, ao contrário do Hall9000, se impõe com graça e charme. É friendly, como dizem hoje em dia. Diverte, aconselha, vai à praia, faz sexo. Só que Samantha faz isso com mais de 6.000 usuários, namorados, amantes etc. Ela ajuda Twombly até a assinar o divórcio para a ex, que não se conforma com a revelação da nova paixão e diz verdades duras para Theodore, com quem cresceu e se casou. Os homens não suportam aquilo que, relutantemente, chamamos de realidade. Quando ela se mostra na reprimenda da ex-mulher o choque é inevitável, mas Catherine (a linda Rooney Mara) estava certa, é claro. É preciso reconhecer: homens podem ser imaturos, previsíveis e infantis, quase sempre são. A relação com Samantha esmorece. Theodore sofre e se desespera. Tudo exatamente igual ao que acontece todos os dias na vida de cada um de nós, despreparados e afoitos para um amor maduro, se é que isso é possível.
A literatura e o cinema têm abordado esse tipo de fetiche não é de hoje. Lembra de "2001 – Uma odisseia no espaço" ? Pois é, o OS de Theodore, ao contrário do Hall9000, se impõe com graça e charme. É friendly, como dizem hoje em dia. Diverte, aconselha, vai à praia, faz sexo. Só que Samantha faz isso com mais de 6.000 usuários, namorados, amantes etc. Ela ajuda Twombly até a assinar o divórcio para a ex, que não se conforma com a revelação da nova paixão e diz verdades duras para Theodore, com quem cresceu e se casou. Os homens não suportam aquilo que, relutantemente, chamamos de realidade. Quando ela se mostra na reprimenda da ex-mulher o choque é inevitável, mas Catherine (a linda Rooney Mara) estava certa, é claro. É preciso reconhecer: homens podem ser imaturos, previsíveis e infantis, quase sempre são. A relação com Samantha esmorece. Theodore sofre e se desespera. Tudo exatamente igual ao que acontece todos os dias na vida de cada um de nós, despreparados e afoitos para um amor maduro, se é que isso é possível.
Her concorre a cinco
Oscars, incluindo melhor filme e roteiro original, prêmio que já ganhou no Globe Awards. Talvez repita o feito em
Los Angeles, onde, inclusive, o filme se passa. Justo. Se a pompa e a caretice da Academia não predominarem, William Butler e Owen Pallett (Arcade Fire) deveriam ganhar a estatueta pela melhor trilha, que além de bela reforça a nostalgia presente o tempo todo em Her. Jonze deu várias entrevistas dizendo que o figurino do filme, por exemplo, remonta aos anos 30 e 40 na América. Ao mesmo tempo, a fotografia é muito próxima das cores mais recentes do novo celular da Apple. Qualquer outra premiação
seria uma surpresa, mas o mainstream
da indústria do entretenimento tem surpreendido pelo que se viu na recente
edição do Grammy. É esperar para ver.
Amy Adams, a vizinha e amiga problemática de Theodore, concorre a melhor atriz
por “Trapaça”. Joachin Phoenix, no papel de Theodore, mereceria uma indicação a melhor ator. Ele está impecável, sedutor, um dos responsáveis pelo
filme alternar poesia e realidade, ternura e solidão, humor e sofrimento, muitas vezes em planos fechados de rosto, captando suas expressões de acordo
com as nuances do filme. Mas Phoenix trabalhar bem não é surpresa. Scarlett Johansson, a voz de Samantha, também não. Arcade Fire, idem.
O mais desconcertante
em Her, depois das esquisitices de
“Quero ser John Malcovich”, da associação com “Jackass” e da chatice de
“Adaptação”, é o arco delicado que Spike Jonze consegue traçar entre a
contemporaneidade, inteligência artificial e o velho Platão. Afinal, não foi
ele que concebeu o mundo sensível a partir da ideia das coisas ? Theodore
Twombly é a personificação do ideal platônico a comprovar que não nos apaixonamos
pelo outro, mas pela ideia do outro; pela ideia, inata, do amor e da própria paixão.
De lá para cá, passados quase 3.000 anos, Platão ainda incomoda, já que pouco
se fez para mudar o que realmente somos.
