quinta-feira, 6 de março de 2014
UM FILME DO TAMANHO DA SUA BELEZA
Não gosto de indicar filmes, livros, música, o que quer que seja a ninguém. Isso é chato e, não raro, um gesto presunçoso e arrogante, como se as pessoas fossem gostar ou não gostar das mesmas coisas que você. Tô fora. No entanto, pelo que li e ouvi sobre A GRANDE BELEZA, gostaria de contrapor algumas coisas.
- SIM, o filme se passa em Roma, em detalhes e grandes planos lindos e perfeitos, mas é só um disfarce. Duvido que algum turista vá conhecer Roma pelo filme, que não mostra nada. Roma é metáfora de uma história que se perdeu.
- NÃO, o argumento e o roteiro não são frívolos (nem o filme), pelo contrário: é difícil contar a história difusa do protagonista, Jep Gambardella, escritor (ex-escritor ?) em busca do seu passado depois do primeiro livro. Jep não quer escrever o segundo romance porque não está disposto, não tem vontade e nem vê motivação para isso, mas talvez seja obrigado a isso. Jep está fazendo 65 anos, revendo sua vida e isso é muito duro para qualquer um, apesar da elegância do personagem. Roma não é mais a mesma. Jep não é o mesmo, embora continue fazendo as mesmas coisas até descobrir A Grande Beleza, no final do filme, que é mais uma pergunta. O filme é sobre perguntas, que não aparecem na forma de um ponto de interrogação. A GRANDE BELEZA deveria atrair já pelo título, entre especialistas ou não em cinema, entre quem gosta e não gosta de uma provocação, entre quem está e não está procurando uma revelação. Fica o convite, que não serve para todos e nem deveria servir. Um filme é só um filme.
- SIM, mereceu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Estava torcendo por A CAÇA, porque sou professor e o filme trata da relação complicada entre professores, temas polêmicos e complexos, alunos e instituições. A Grande Beleza é melhor. Não assisti aos outros filmes indicados.
- SIM. Saí do cinema pensando em Alain Resnais, que morreu por esses dias, pura indução. Assisti a "O Ano Passado em Marienbad" há mais de 30 anos e o filme continua a ser uma incógnita que não faço nenhuma questão de decifrar. Durante todo esse tempo, sempre penso em "Marienbad" com o mesmo fascínio da primeira vez. Descobri o Novo Romance francês e escritores como o genial Robbe-Grillet, que fez o roteiro, entre outros autores que me foram apresentados pelo Karam, com livros emprestados e tudo. É isso que conta. O Karam me mostrou que um filme não é só um filme.
- NÃO - A GRANDE BELEZA está longe disso. Paolo Sorrentino não é o novo Resnais. Não vou levar o filme pelos próximos 30 anos. Hoje, ninguém tem tempo para isso. Nem eu, mas que o filme não se acaba ao final da projeção, isso é verdade. Em tempo: SIM, é uma bela homenagem a Fellini.
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